Eles socorrem vítimas de terremotos e dão doces no Halloween. Mas por trás das boas ações, está a principal organização criminosa do Japão. Abaixo iremos falar mais a respeito da Yakusa.

 

Conheça a Yakuza, uma máfia legal

Eles socorrem vítimas de terremotos, dão doces no Halloween e participam de diversos atos de solidariedade. Mas por trás das boas ações, está a principal organização criminosa do Japão, a Yakusa. Imaginem as seguintes cenas:

 

Cena 1. Os relógios de Tóquio marcavam 14h46 em 11 de março de 2011 quando um terremoto de 8,9 graus na escala Richter – o mais devastador registrado no Japão – assolou o nordeste do país. O tremor provocou ondas gigantes que varreram navios, edifícios e automóveis, matando 23 mil pessoas. Menos de 24 horas depois, toneladas de água e comida começaram a chegar para 350 mil desabrigados. A boa ação não era da Cruz Vermelha ou dos Médicos sem Fronteiras. No Japão, os bons samaritanos não vestem jaleco branco. Usam terno preto e têm o corpo tatuado.

 

Quando o tsunami atingiu o Japão em 2011, a yakuza estavam entre os primeiros a ajudar as vítimas das áreas afetadas, antes mesmo do governo japonês. Grupos da máfia Yakuza entregou comida, água, cobertores e artigos de higiene pessoal para centros de evacuação no nordeste do Japão.

Quando o tsunami atingiu o Japão em 2011, os membros da Yakuza estavam entre os primeiros a ajudar as vítimas das áreas afetadas, antes mesmo do governo japonês. Os membros da máfia Yakuza entregaram comida, água, cobertores e artigos de higiene pessoal para centros de evacuação no nordeste do Japão.

 

Cena 2. Três anos depois do mais grave acidente nuclear japonês, operários ainda são recrutados para remover os destroços da usina de Fukushima. Indigentes e desempregados são aliciados por gangues criminosas para fazer o trabalho sujo e radioativo. É o caso de Shizuya Nishiyama, 57 anos. Dormindo ao relento sob o rigoroso inverno japonês, Nishiyama aceitou o trabalho sem saber onde seria. E pior: sem receber o que foi prometido. Boa parte do salário dos “ciganos nucleares” vai para o bolso dos aliciadores, que ganham US$ 100 por recrutado.

 

Shizuya Nishiyama, 57, um homem sem-teto a partir de Hokkaido, disse que trabalhou limpando escombros na zona de desastre nuclear, mas à esquerda após uma disputa sobre salários. (ISSEI KATO / REUTERS)

Shizuya Nishiyama, 57, um homem sem-teto de Hokkaido, disse que trabalhou limpando escombros na zona de desastre nuclear de Fukushima. (ISSEI KATO / REUTERS)

 

Não parece, mas as duas cenas estão conectadas. No Japão, o honrado cavalheiro que auxilia vítimas do tsunami também escraviza sem-tetos para descontaminar Fukushima. Trata-se de um membro da Yakuza, como é conhecida no Ocidente a principal organização criminosa japonesa. O código de honra da máfia prega proteger os fracos e combater os poderosos. Mas, na prática, a teoria é outra. “Os yakuzas têm uma visão heroica de si e a vendem para a opinião pública”, afirma o historiador Andrew Rankin, da Universidade de Cambridge. “A ajuda humanitária não passa de marketing para conquistar simpatia popular.”

 

Falando em marketing, os yakuzas nem gostam de ser chamados assim. O nome vem do oicho-kabu, jogo de cartas parecido com o blackjack. Cada jogador recebe três cartas e ganha quem chegar mais perto de 19 pontos. Se as cartas recebidas somam 8 (ya) + 9 (ku) + 3 (za), o jogador faz 20 e perde. Por analogia, yakuza passou a significar algo “inútil” e “sem valor”. Por isso, os mafiosos preferem a alcunha de gokudo (“caminho sem volta”). “O gokudo vai à frente, não volta atrás e termina o que começou”, define o jornalista americano Jake Adelstein, que trabalhou por 12 anos no Yomiuri Shimbun, maior jornal do Japão, e escreveu Tóquio Proibida – Uma Viagem Perigosa pelo Submundo Japonês. Já as autoridades policiais chamam os yakuzas de boryokudan (“grupos violentos”).

 

Oicho-kabu jogo de cartas que originou o nome Yakuza (

Oicho-kabu jogo de cartas que originou o nome Yakuza.

 

Pelos cálculos da Agência Nacional de Polícia (NPA), há cerca de 53 mil yakuzas – fontes não oficiais sugerem 83 mil. Das 22 facções, as três maiores – e mais violentas – são: Yamaguchi-gumi, Sumiyoshi-kai e Inagawa-kai. A primeira tem sede em Kobe e as outras em Tóquio. No Japão, o crime é mais que organizado. É corporativo. As quadrilhas têm sede, escritório, site, fanzine e cartão de visitas. “Fazer parte desses grupos não configura crime no país. Eles são protegidos pelo direito constitucional da livre associação”, explica o advogado brasileiro Eduardo Mesquita, da Universidade de Tóquio.

 

Cerca de 60% do dinheiro dos yakuzas vem de negócios escusos, como extorsão, agiotagem, prostituição, jogos de azar, pornografia infantil e tráfico de drogas. Os outros 40% do faturamento têm origem em atividades legais, como construção civil, mercado financeiro e setor imobiliário. Em 2006, a polícia de Tóquio mapeou mais de mil empresas de fachada para lavar dinheiro da máfia, incluindo agências de emprego, companhias de seguro e até estúdios de cinema – não é raro ver filmes exaltando virtudes heroicas dos yakuzas. Outra tentativa midiática de melhorar a autoestima do grupo e recrutar membros passa pela imprensa. Kenichi Shinoda, líder da Yamaguchi-gumi, lançou um tabloide com dicas de viagens, poemas haicai e relatos de pescaria. No editorial, ensina aos jovens valores tradicionais, como valentia, disciplina e lealdade.

 

40% do faturamento da Yakuza tem origem em atividades legais, como construção civil, mercado financeiro e setor imobiliário.

 

Dogmas do submundo

A máfia japonesa segue uma estrutura familiar. De um lado, os padrinhos (oyabun), que dão grana, conselhos e proteção. Do outro, os afilhados (kobun), que juram fidelidade incondicional. “Se o oyabun diz que o corvo é branco, o kobun tem que concordar”, ilustra David Kaplan, coautor de Yakuza– Um Levantamento Explosivo do Submundo Japonês do Crime. Atualmente, a Yakuza enfrenta dificuldades para renovar os membros – qualquer um com até 25 anos pode ingressar.

Quase um terço dos kobuns vem de grupos de delinquentes juvenis (bosozoku). Quem adere recebe aulas de artes marciais, incluindo o manejo de faca e outras armas brancas (no Japão, armas de fogo são proibidas), e passa por um período de teste para provar lealdade ao oyabun. Reza a lenda que a facção Kodo-kai teria um centro de treinamento na cidade de Nagoya.

Embora o grupo não seja religioso, algumas regras parecem mandamentos. “Nunca revelar os segredos da organização”, “Não ter envolvimento com narcóticos”, “Não tirar dinheiro da quadrilha”, “Não desobedecer superiores” e “Não recorrer à polícia ou à Justiça” são exemplos. Talvez por isso, “entrar para a máfia tornou-se antiquado. Ser yakuza já não é mais tão cool”, afirma Andrew Rankin.

 

 

Sakazukigoto – Ritual de Iniciação

Por causa de sua natureza hierárquica, os iniciantes da organização yakuza são obrigados a serem subservientes aos membros mais experientes. A Yakuza tem uma estrutura complexa e para progredir até o topo da hierarquia, tem um longo caminho a ser percorrido. Mas existe um ritual de iniciação que todo iniciante deve passar, conhecido como Sakazukigoto.

Durante o ritual, o iniciado fica em frente ao seu oyabun, enquanto o saque é servido por outros membros. O recém-chegado é servido com uma porção menor, enquanto o copo do oyabun está cheio até a borda, como uma forma de mostrar o seu status. Assim inicia-se o vínculo entre o kobun e o oyabun.

Muitas vezes, a cerimônia é realizada em um santuário xintoísta. Como muitos sabem, o saquê é uma bebida típica de várias cerimônias no Japão, incluindo as religiosas. É considerado um elo de ligação entre o homem e os deuses e também serve para cimentar o relacionamento entre as pessoas.

 

Sakazukigoto, ritual de iniciação Yakuza

Sakazukigoto, ritual de iniciação Yakuza.

 

Ritual Yubitsume

Quando alguém entra para a Yakuza, é como um pacto para a vida toda. O membro precisa dispor de lealdade absoluta para com o seu clã e uma vez que infringe alguma regra da organização, é punido com a amputação da ponta do dedo mindinho, em um ritual conhecido como Yubitsume.

No caso de novas infrações, uma parte adicional do dedo é cortado, passando aos outros dedos se necessário. O corte do dedo está relacionado com o enfraquecimento da mão de um espadachim ao empunhar sua espada e desta forma, simboliza também o enfraquecimento do membro com seu clã.

 

Ritual Yubitsume, membro tem parte dos dedos amputadas.

Ritual Yubitsume, membro tem parte dos dedos amputadas.

 

As tatuagens Yakuza

Uma das características mais proeminentes de um membro da Yakuza é o seu corpo tatuado através de uma prática artesanal conhecida como Irezumi. Esta prática é vista como um sinal de bravura devido à dor que o método inflige. Por outro lado, devido à sua associação com a máfia, muitas piscinas públicas e parques aquáticos proíbem a entrada de pessoas tatuadas.

Muitas repartições públicas também não aceitam trabalhadores com tatuagens pelo mesmo motivo. Embora o número de pessoas tatuadas sem vínculo com a máfia seja bastante significativo, o estigma continua e a tatuagem pode ser um obstáculo para muitos cidadãos na hora de encontrar um trabalho.

Os membros da Yakuza eram geralmente tatuados dos pés ao pescoço, porem esta pratica vem diminuindo a maneira com a qual os membros vem tendo dificuldade em se relacionar com o resto da sociedade.

Os membros da Yakuza eram geralmente tatuados dos pés ao pescoço, porem esta pratica vem diminuindo a maneira com a qual os membros vem tendo dificuldade em se relacionar com o resto da sociedade.

Tradições em declínio

Nos últimos dez anos, a máfia perdeu mais de 33 mil membros – nos anos 1960, tinha 184 mil e mais de 5 mil clãs. Além do cerco policial apertando, também tem muito mafioso pedindo para sair. Mas deixar o crime não é fácil. Por causa da crise que castiga o Japão, muitos desertores não se alocam no mercado de trabalho convencional.

Como muita gente reluta em contratar funcionários com dedos amputados, um dos gestos mais tradicionais dos mafiosos, de cortar a falange do dedo (yubitsume) e oferecê-lo ao chefe da facção como pedido de desculpas, está sendo abandonado. Os mais jovens preferem pagar em dinheiro ou no cartão pelo perdão. Para os amputados – quatro em cada dez yakuzas, segundo a NPA – o jeito é recorrer a fabricantes de próteses para arranjar um emprego. Os mais requisitados cobram até US$ 3 mil por cada peça de silicone, sob medida.

Outro costume com os dias contados é cobrir o corpo de tatuagens (irezumi). Em seus áureos tempos, os yakuzas se submetiam a longas e dolorosas sessões com agulhas de bambu, osso ou madeira para provar coragem. Hoje, para não chamar a atenção da polícia, os novos membros fazem desenhos mais discretos. Sinal dos tempos: homens tatuados já não são mais bem-vindos nas tradicionais casas de banho japonesas.

 

Sanja matsuri

Sanja Matsuri é um dos maiores festivais de Tóquio, realizado anualmente no templo Senso-ji, localizado no bairro de Asakusa. Muitos participantes desse festival são membros da Yakuza. No dia a dia, os membros não costumam exibir suas tatuagens, mas no festival, eles são autorizados a faze-lo.

Além da participação no festival, alguns dos mikoshi (uma espécie de (santuário portátil) que se apresentam durante o festival são financiados por alguns grupos da máfia japonesa. Alguns dos mikoshi podem pesar cerca de uma tonelada e custam em média 500 mil dólares (cerca de 40 milhões de ienes).

 Mikoshi são pequenas réplicas de templos, alguns deles podem pesar cerca de uma tonelada e custam em média 500 mil dólares.

Mikoshi são santuários portáteis, alguns deles podem pesar cerca de uma tonelada e custam em média 500 mil dólares.

Atividades ilegais da Yakuza

A Yakuza é responsável por praticamente todos as atividades ilegais no Japão. Isso inclui espionagem, tráfico de entorpecentes e armas de fogo, jogos (pachinko), agiotagem e extorsão. Gerencia a prostituição, trazendo escravas sexuais da Rússia, China e outros países asiáticos como Filipinas e Tailândia.

Entre suas atividades ilegais está o Sokaiya, um método de chantagem praticada em larga escala. Essa prática envolve a compra de ações de uma empresa, o suficiente para levá-los à uma assembléia de acionistas. Antes, porém, membros da máfia fazem uma pesquisa detalhada sobre a empresa a fim de descobrir incidentes de má conduta ou outros segredos empresariais.

Muitas vezes, eles inventam fatos e forjam provas a fim de comprometer ainda mais a empresa. E para manter sigilo, evitando que um escândalo veia à tona, a máfia chantageia a empresa, extorquindo muito dinheiro dela. E tudo isso é feito por baixo dos panos e as ameaças são feitas de uma forma indireta. É o que aconteceu com a empresa Olympus.

A Olympus Corporation é uma empresa japonesa de equipamentos ópticos. Fundada por Takeshi Yamashita, começou suas operações em outubro de 1919 produzindo microscópios e termômetros, destacando-se atualmente no mercado de câmeras digitais e equipamentos médicos e científicos.

Em 2011, o CEO da empresa Tsuyoshi Kikukawa foi demitido sob a alegação de que ele pagou cerca de 1,6 bilhões de dólares à uma das principais organizações criminosas do mundo e a maior desde sempre no Japão, a Yakuza.

O escândalo percorreu o mundo em capas de jornais e nas principais estatais de TV. Algo parecido ocorreu em 1994, quando Juntarō Suzuki, vice-presidente da Fujifilm (empresa multinacional também japonesa) foi assassinado com uma Katana (arma branca típica japonesa) por ter se recusado a pagar subornos.

olympus-camera

O CEO da empresa Olympus, Tsuyoshi Kikukawa, foi demitido sob a alegação de que ele teria pago cerca de 1,6 bilhões de dólares aos membros da Yakuza.

 

Yakuza na política

Em 2012, o ministro da Justiça do Japão, Keishu Tanaka, foi forçado a renunciar ao cargo após descobrirem sua ligação com a yakuza. No entanto, a máfia tem influência na política japonesa desde sempre. O primeiro-ministro Nobusuke Kishi, por exemplo, esteve fortemente envolvido com a Yamaguchi-gumi.

Em 1971, Kishi, juntamente com outros políticos, pagaram a fiança de um líder da Yamaguchi-gumi, condenado por assassinato. Ele também participou de funerais e casamentos yakuza. Além disso, é comum ver membros da Yakuza como seguranças ou operando campanhas políticas durante as eleições.

Além disso, as gangues Yakuza são capazes de garantir um determinado número de votos para o seu candidato favorito. O presidente de uma gangue de yakuza em Kyoto, por exemplo, forneceu 30 mil votos para eleger um governador. Pelo menos quatro outros primeiros-ministros têm sido associados a yakuza, mais notavelmente Noboru Takeshita, que chegou ao poder em 1987.

 

Keishu Tanaka, foi forçado a renunciar ao cargo após descobrirem sua ligação com a yakuza.

Keishu Tanaka, ministro da justiça do Japão, foi forçado a renunciar ao cargo após descobrirem sua ligação com a yakuza.

 

Legislação anti-yakuza

Um policial de Osaka comparou seu trabalho investigando a Yakuza com o de um jardineiro de bonsai: “Nós apenas aparamos os galhos. Raramente tocamos as raízes”. Isso começou a mudar nos anos 1990, com a criação das primeiras leis contra os yakuzas. Escutas telefônicas, delações premiadas e proteção à testemunha começaram a ser usadas no combate à máfia.

Após dez anos, a legislação endureceu. Ao pedir um empréstimo, alugar imóvel ou abrir conta no banco, a pessoa precisa declarar não ter vínculo com o crime organizado. Desde 2011, é ilegal fazer negócio com membros da máfia. Até quem sofre tentativa de extorsão e não denuncia vira cúmplice. Aconteceu com o apresentador de TV Shinsuke Shimada. O “Jay Leno do Japão” se viu obrigado a se aposentar após ter divulgada uma troca de e-mails com um ex-chefão da Yamaguchi-gumi. “Não acho que estivesse fazendo algo errado, mas esse tipo de amizade tornou-se inaceitável no Japão”, lamentou Shimada.

 

Outra lei pesada responsabiliza os chefões por deslizes de subalternos. Para não correr riscos, facções criaram um “exame de admissão” para quem deseja seguir carreira no submundo japonês. Entre as 12 questões do teste estão “Como agir em caso de roubo de carro?”, “Quando devo usar escutas ilegais?” e “Em que situações posso recorrer ao chefe da facção?”.

 

33 mil yakuzas desertaram, morreram ou foram presos nos últimos dez anos.

 

Um mal a ser erradicado

Para agravar a agonia da Yakuza, a Yamaguichi-gumi sofreu um racha em setembro de 2015, expulsando cerca de 3.300 membros, que formaram o grupo rival Yamaken-gumi. A polícia entrou em estado de alerta, temendo derramamentos de sangue como os dos anos 1980. Até pouco tempo, uma das regras dos yakuzas era a de não ferir quem não fosse do crime organizado, o que, de certa forma, os protegia da intolerância da população e do cerco da polícia. Isso também mudou. No fogo cruzado entre as gangues, ninguém está a salvo. Por medida de segurança, os yakuzas suspenderam até a festa do Halloween, em outubro. “Antigamente, a Yakuzaera vista como um mal necessário à sociedade japonesa. Agora é apenas um mal a ser erradicado”, afirma Adelstein.

 

A Yakuza está perto do fim? Alguns especialistas avaliam que sim. “Ela está obsoleta. Mais uma ou duas leis e eles serão carta fora do baralho”, garante Jake Adelstein. Outros defendem que, se quisesse, a polícia já teria se livrado dos mafiosos. “De certa forma, interessa ao governo manter os yakuzas ao alcance de seus olhos”, acredita David Kaplan. “Mais do que o crime organizado, o que apavora o cidadão japonês é o crime desorganizado”, conclui.